quarta-feira, 13 de agosto de 2014

11° Poesia Vertical - 3







Uma escrita que suporte a intempéries,

que se possa ler sob o sol e a chuva,

sob o grito ou à noite,

sob o tempo desnudado.

uma escrita que suporte o infinito

as rachaduras que se repartem como o pólen,

a leitura sem piedade dos deuses,

a leitura iletrada do deserto.

uma escrita que resista

a adversidade total.

uma escrita que se possa ler 

até na morte.


R. Juarroz >>>Tradução: Narjara Oliveira

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Não paga







a dor
decorrência
do prazer artificial  
pesa
não compensa 
dispersa
demerito proposital
dispensa argumentos
fragmenta o ser
o incapacita pro viver
incita a autodestruição
endossa a negação
há um vazio em sua morada
autopiedade em demasia
o flagelo se anuncia
é um dom sem obra
é um viver contrariada
partir sem dizer nada
desconhece mãe, irmã, ou namorada
que todo dia de madrugada
mata o que alivia
elege a euforia
e esconde sem sucesso
os tiques de agonia
deveras é a dor apurada
mas não compensa
não compensa, camarada
nem meia tonelada
sua possível fuga temporária




sábado, 20 de julho de 2013

O poema


o poema
escrevo com
unhas
imito
a substância
aromática
da verdade
nas folhas
carnosas
de um corpo
na morna
amálgama
de suplícios
o verso
desconstrói
meus elementos
&
transcreve
sobre a linha
torta
uma tristeza
encomendada

Latel lam





o asno vencemos pelo cansaço
contra a desistência

não há o que se faça
é inerente ao soluço da dor

macula o labor
é a espera impaciente

um signo em branco
significante para o sentindo

incolor para as coisas
não há dessabor

no prato vazio
sobre a mesa



arm




                                                                                para  Pedro Vianna




à direita da cama
               onde ela se deita
desarma
               derrama
há um braço
                branco
                              estirado
 que dor(me)

 mas ch(ama)

terça-feira, 22 de maio de 2012

Be Atriz

para  Beatriz Sobral Vianna






Be Atriz


Beatriz é Azul
Como azul é o Amor
Como Azul é Deus

Um rosado que dança
Um Lápis de Cor
Traçando a herança

O arco-íres das longas tardes 
Que chamamos de  ponte da felicidade
Cortamos assim, o céu cinzento sem fim 
da nossa ingenua mocidade

Um verso-multiverso 
Indecifrável e rítmico
inquieto

Uma nota mental  em neon:
você nunca estará só! somos sóis...
Dançamos na rua, na chuva, com a lua
percorremos quilômetros dentro de nós


Ela canta até dormir
A ultima canção do dia
pra dor sorrir

luz acesa... verdadeira chama
amor que não cansa
alma de atriz, 
num corpo de criança






                                         

terça-feira, 10 de agosto de 2010

au revoir ou Blues para viagem





Faça-me o favor, querida...
Suma do mapa
suicide-se
na próxima esquina

pule de uma vez
na tua piscina
enquanto ela esvazia

suas idéias são tão toscas
tua ausência
bem-vinda

evite já na entrada
a unânime despedida
você não mais me engana
chega de desculpas
esfarrapadas
com o cheiro de tequila

não me comove o pranto
de quem cospe
no seu prato de comida

vá!!! (gritos e sussurros e gemidos)
suma de uma vez
com esta decadência desmedida

vá!
tua presença incomoda,
tua falta alivia

vá...
o teu lindo corpo
não compra mais
nem aquela mal servida

Vai?
passe umas férias prolongadas
lá pra tal da conchichina

aaaai querida!!!
você escolheu muito mal
sua ultima inimiga

Narjara Oliveira

sexta-feira, 23 de julho de 2010

4 "P" (pseudo poeta, porre e sem um puto)




o poeta
frio
não sente
o poeta vazio constrói retas
procura frestas no barraco alheio
nunca fica de joelhos
o poeta fracassado
não comete pecado
não ri de uma simples piada
o poeta de hoje em dia
finge agonia
não sabe de anarquia
e nunca cometeu terrorismo poético.
o poeta deste tempo
não fica rouco
fala muito e sabe pouco
do amor louco de Hankin Bey
o poeta de hoje
é o hippie de ontem
impregnando na mesa
o copo-ouvido-corpo de alguém
usa outrem
e não come ninguém.


Nota: o texto acomoda tb psd atrizes, diretoras, cantoras e escritoras com prêmio à mão e auto-estima no chão. Um saco essa gente que diz saber tudo e não faz nada! arg. rs

sexta-feira, 30 de abril de 2010









A vida não é um ensaio, P!...

terça-feira, 16 de março de 2010

Poesia vertical 55


Picasso - o beijo



Um amor mais além do amor

Por cima do rito do vínculo

Mais além do jogo sinistro

Da solidão e da companhia

Um amor que não necessite regresso

Porém tampouco partida

Um amor que não se sujeita


aos flashes de ir e vir


De estar acordados ou adormecidos

De chamar ou calar

Um amor para estar juntos

Ou para não está-lo

mas também

para todas as posições intermediárias

um amor como abrir os olhos

e talvez como fecha-los.


Roberto Juarroz >>>>>>> Tradução: Narjara Oliveira

terça-feira, 2 de março de 2010

Ciclos


foto francesca woodman


vícios semeados

na fecunda terra

solo-coração

selva que não quero

seiva que nasce mãe

rompendo o clarim
na fronteira

mundo & olhos

a candura uivou rubra

em tua nuca descorada

amordaçaram os gritos

ocultaram os gestos

camuflaram os gemidos

o pássaro negro

ensaia o canto feral

o aceno é óbvio

e a palavra, súbita.

vive & fenece

nas línguas impulsivas
das manhãs dissolutas.


Narjara Oliveira

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Pornografia




Na Pérsia eu vi que a poesia é feita para ser musicada e cantada
– por uma razão simples – porque funciona.Uma combinação perfeita de imagem e melodia coloca o público num hal (algo entre um estado de espírito emocional/estético e um transe de supraconsciência), explosões de choro, impulsos de dança – uma mensurável resposta física à arte. Para nós, a ligação entre poesia e corpo morreu junto com a época dos bardos – lemos sob influência de um gás anestesiante cartesiano.

No norte da Índia, mesmo a recitação não-musical provoca barulho e movimento, todo bom verso é aplaudido, ”Wa! Wa!” com elegantes movimentos de mãos, e rúpias são lançadas – enquanto nós ouvimos poesia como um daqueles cérebros de ficção científica em um vidro – na melhor das hipóteses, um sorriso amarelo ou uma careta, vestígios dos rituais símios – o resto do corpo longe, em algum outro planeta.

No Oriente, às vezes os poetas são presos – uma espécie de elogio, já que sugere que o autor fez algo tão real quanto um roubo, um estupro ou uma revolução. Aqui, os poetas podem publicar qualquer coisa que quiserem – o que em si mesmo é uma espécie de punição, uma prisão em paredes, sem eco, sem existência palpável – reino de sombras do mundo impresso, ou do pensamento abstrato – um mundo sem risco ou eros.

A poesia está morta novamente – e mesmo que a múmia do seu cadáver possua ainda algumas de suas propriedades medicinais, a auto-ressureição não é uma delas. Se os legisladores se recusam a considerar poemas como crimes, então alguém precisa cometer os crimes que funcionem como poesia, ou textos que possuam a ressonância do terrorismo. Reconectar a poesia ao corpo a qualquer preço. Não crimes contra o corpo, mas contra Idéias (e Idéias-dentro-das-coisas) que sejam letais e asfixiantes. Não libertinagem estúpida, mas crimes exemplares, estéticos, crimes por amor. Na Inglaterra, alguns livros pornográficos ainda estão banidos. A pornografia produz um efeito físico mensurável em seus leitores. Como propaganda, ela às vezes muda vidas por revelar desejos secretos.

Nossa cultura gera a maior parte de sua pornografia motivada pelo ódio ao corpo –mas, como em certas obras orientais, a arte erótica em si mesma cria um veículo elevado para o aprimoramento do ser/consciência/glória. Um espécie de pornô tântrico ocidental poderia ajudar a galvanizar os cadáveres, fazê-los brilhar com uma pitada de glamour do crime.

Os Estados Unidos oferecem liberdade de expressão porque todas as palavras são consideradas igualmente insípidas. Apenas as imagens contam – os censores amam cenas de morte e mutilação, mas horrorizam-se diante de uma criança se masturbando – para eles, aparentemente, isso é uma invasão de seu fundamento existencial, sua identificação com o Império e seus gestos mais sutis.Sem dúvida, nem mesmo o pornô mais poético faria o cadáver sem rosto reviver,dançar e cantar (como o pássaro do Caos chinês) – mas... imagine o roteiro de um filme de três minutos ambientados numa ilha mítica povoada por crianças fugitivas que moram nas ruínas de antigos castelos ou em cabanas-totens e ninhos construídos com detritos – uma mistura de animação, efeitos especiais, computação gráfica e vídeo – editado de forma compacta, como um comercial de fast-food...... mas insólito e nu, penas e ossos, tendas abotoadas com cristais, cachorros negros, sangue de pombos – vislumbres de membros cor de ˆambar enrolados em lençóis – rostos, cobertos por máscaras cheias de estrelas, beijando dobras macias de pele – piratas andróginos, faces abandonadas de colombinas dormindo em altas flores brancas – piadas sujas de se mijar de tanto rir, lagartos de estimação lambendo leite derramado – pessoas nuas dançando break – banheiras vitorianas com patos de borracha e pintos cor-de-rosa – Alice viajando no pó...... punk reggae atonal para gamelão, sintetizadores, saxofones e baterias – boogies elétricos cantados por um etéreo coro de crianças – antológicas canções anarquistas, um misto de Hafez & Pancho Villa, Li Po & Bakunin, Kabir & Tzara – chame-o de ”CHAOS – The Rock Video!”Não... provavelmente é só um sonho. Muito caro para produzir e, além disso, quem o assistiria? Não as crianças a quem ele gostaria de seduzir. A TV pirata é uma fantasia fútil; o rock, outra mera mercadoria – esqueça o malandro gesamtkunstwerk, então. Inunde um playground com obscenos folhetos inflamatórios – propaganda pornô, excêntricos manuscritos clandestinos para libertar o Desejo dos seus grilhões.

Hakin Bey

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Lua revisitada



Não sou paciente, perfeccionista, nem a melhor mulher, irmã, filha ou amiga do mundo.
Sou daqui.
Não me cabem todas as qualidades que por este mundo, são virtudes que (estranhamente) encontramos nas pessoas com freqüência.
Tenho a síndrome da noiva indecisa, cometo autoflagelo e às vezes dou uma de moralista.

Rará... Eu? Moralista?!
“Não me tragam estéticas!Não me falem em moral!Tirem-me daqui a metafisica!Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistasDas ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ­Das ciências, das artes, da civilização moderna!Que mal fiz eu aos deuses todos?Se têm a verdade, guardem-na!Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.Com todo o direito a sê-lo, ouviram?Não me macem, por amor de Deus!Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.Assim, como sou, tenham paciência!Vão para o diabo sem mim,Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!Para que havemos de ir juntos?” Adoro o Pessoa nisso.
E sei que iguais a mim, nessas características, nascem e se colhem aos cachos.
Mas, não é isso que me consola, não estou em busca de pessoas piores que eu para que eu me sinta menos vil.
Sinto-me em paz quando erro e consigo ver através do meu erro que minha ação inversa me deixaria verdadeiramente mais feliz: A mim, ao outro, a qualquer um a quem um dia fui injusta, indisplicente, impontual, porém, nunca desumana.
Erro, erro, erro sem previsão de números.
E quase sempre me arrependo (o quase é em virtude dos erros em que ainda aceitei como tal. Acontece... Ainda sou humana).
Não sou santa, nunca fui santa, mas confesso que sou invadida por uma imensa alegria quando me permito a atos divinos. A minha mãe sempre diz: Quem é sábio aprende com o erro dos outros.
E então, penso: eu não estaria sendo espertinha me aproveitando dos erros dos outros? Estaria eu alimentando meu egoísmo ao viver minha vida sem erros, apenas acertos?
Ou pior, expandindo em mim o território vaidade?
Deus! Quanta vileza na tentativa de não errar! Alcançar a sapiência não é tão fácil o quanto as mães gostariam que fosse. Exige muita observação e poucas palavras. É tão difícil calar. Principalmente quando se tem a euforia da juventude, cheia de verdades absolutas, imutáveis e idiotas. Arrg! Eu odeio isso em mim e nos outros. Principalmente quando os outros já não são tão jovens... Rs.
Eu me esmero para mudar, acreditem, e se não mudo nem por isso deixo que me peguem no braço, eu também não gosto que me peguem no braço.
Não tenho a ganância espiritual, não me recuso a jogar com as idéias, não posso escolher a mágica contemplação e negligenciar minha humanidade, não evito a distração por uma angústia tola, não hesito, nem desperdiço minhas oportunidades de ser divina.
Aprendi com o tempo, aprendi com os que me odeiam e com os bem-aventurados que se permitem me conhecer, aprendi a ser eu e a reconhecer minhas qualidades e não ter medo de expor meus defeitos, aprendi com um dos poetas que mais me toca (e neste caso, duplamente. rs.) com uma de suas frases célebres & ácidas, Pedro Vianna(
http://palavraprecipicio.blogspot.com/):
" Vão lhe dizer milhões de coisas ao meu respeito, mas me pergunte antes, pode ser verdade!"



Narjara Olivié