
aparição fanal
mitigada
pelo tempo
desceu
encadeou
abriu
o corte cru
o estancou
me lavrou
me sujou
morreu cheia
moveu-se oca
extra-vagante
Narjara Olivié
Narjara Olivié
canção agonista
para Narjara Oliveira
hoje não há perdão
XXXXXXXXXXXXXXX – só perdas
& chagas mal lambidas
pela solidão que nos
XXXXX persegue quando
mais nos buscamos
ainda que eu engula
montanhas de pedras ou
corte os pulsos
XXXXX com os cacos
afiados da vida
não seria capaz
XXXXXXXXXXXXXXXX de te provar
o valor de revelar-se
XXXXX desnuda aos 4
ventos da tortuosa
XXXXX estrada da existência
XXXXX sei que taparias
os olhos & ouvidos
XXXXX com chumaços
de paixão desenfreada
e me mandarias correr
XXXXXXXXXXXXXXX os 7 círculos
do inferno de Dante
a mim
XXXXXXXXXXX pouco importa
que fujas numa procissão
XXXXXXXXXXX ou cuspas fogo
sobre meus poemas
– velarei por teu nome
XXXXX como quem guarda
um segredo homicida –
levarei na carne
a lembrança tatuada
dos dias em que ardias
XXXXX como um sol
sobre minha pele
:
& esta solida impressão
te reinscreverá
em minha memória
XXXXX como um punhal
a persistir num corpo
XXXXXXXXXXXXXXX que agoniza
Pedro Vianna
da mesma
______________________ }entranha{
Narjara Olivié
O mundo começava nos seios de Jandira.
Depois surgiram outras peças da criação:
Surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(Às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos.)
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
O ar inteirinho ficou rodeado de sons
Mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
Captavam objetos animados, inanimados.
Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
Quando Jandira penteava a cabeleira...
Depois o mundo desvendou-se completamente,
Foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
Da cabeça aos pés,
Todas as partes do mecanismo tinham importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
De sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedeciam aos sinais de Jandira
Crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
E eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
Deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
Por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
E apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
Por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira.
E seus cabelos cresciam furiosamente com a força das máquinas;
Não caía nem um fio,
Nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
Tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
A família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
Por causa de Jandira.
E um padre na missa
Esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de Jandira.
E Jandira se casou
E seu corpo inaugurou uma vida nova.
Apareceram ritmos que estavam de reserva.
Combinações de movimento entre as ancas e os seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem
As formas e os sestros de Jandira desde o princípio do tempo.
E o marido de Jandira
Morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
Fez um grande esforço para ressuscitar:
Não se conforma, no quarto escuro onde está,
Que Jandira viva sozinha,
Que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade
E que ele fique ali à toa.
E as filhas de Jandira
Inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
Espera que os clarins do juízo final
Venham chamar seu corpo,
Mas eles não vêm.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
Ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.
Padrões pontuados dentro da pele
fragmentos de um nome inqualificável
tatuado em seu pulso torturado
números adicionando e subtraindo
o pigmento da sua mítica corrida
e também do meu nome através da história
Gravado em sua carne
o manuscrito de um livro
que ela disse ter escrito
em pedaços de papel
enquanto cavalos gigantes
correram toda a terra
sobre cabeças derramadas
e ossos quebrados
No meu sonho aquela noite
depois que ela dobrou o braço
sob a cabeça como um travesseiro
um casco gigante atingiu nossas faces gêmeas
e eu ajoelhei diante dela
para sugar o sangue de seu pulso
onde minhas unhas apagaram nosso nome
A noite passa...
a luz dum mirante
guia a vista cansada
para quem leva o adeus
são mais tristes as caminhadas,
são mais longas a calçadas
não sabe o que é pior:
a dor da partida,
ou a incerteza da chegada.
dor igual só a ferida
dos pés dentro das pegadas
a(que)las, sem porquê
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ para o nada.