quinta-feira, 26 de março de 2009

um homem e uma mulher absolutamente brancos






Lá no fundo do guarda-sol vejo as prostitutas maravilhosas

Com trajes um pouco antiquados do lado da lanterna cor dos bosques

Levam a passear consigo um grande pedaço de papel estampado

Esse papel que não se pode ver sem que o coração

senos aperte nos andares altos de uma casa em demolição

Ou uma concha de mármore branco caída no caminho

Ou um colar dessas argolas que se confundem atrás delas nos espelhos

O grande instinto da combustão conquista as ruas

onde elas caminham Direitas como flores queimadas

Com os olhos na distância levantando um vento de pedra

Enquanto imóveis se abismam no centro da voragem

Nada se iguala para mim ao sentido do seu pensamento desligado

A frescura do regato onde os sapatinhos delasbanham a sombra dos seus bicos

A realidade daqueles molhos de feno cortado onde desaparecem

Vejo os seus seios que abrem uma nesga de sol na noite profunda

E que se abaixam e se elevam a um ritmoque é a única exacta medida da vida

Vejo os seus seios que são estrelas sobre as ondas

Seios onde chove para sempre o invisível leite azul

A. Breton

sábado, 14 de março de 2009

Habla Rimbaud!


Foto - francesca woodman


Quando o mundo for reduzido


a um único lenho negro para nossos quatro olhos pasmados,

a uma praia para duas crianças fiéis,

a uma casa musical para nossa clara simpatia,

eu o encontrarei.

.......... Haja sobre a terra apenas um velho solitário,
calmo & belo,

rodeado de um "luxo extraordinário"
— e estarei a seus pés.

.......... Assim que tiver imaginado todas as suas lembranças,

seja eu aquela que sabe estrangulá-lo,

eu o sufocarei.



Rimbaud

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

E por que haverias de querer...


Francesca woodman - foto


E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?


Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo.


Obriga-me.



Hilda Hist

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

na noite



João lin - niemeyerDesenho para a esposição “OSCAR NIEMEYER, ONDE O TRAÇO FAZ A CURVA"

aparição fanal
mitigada
pelo tempo
desceu
encadeou
a fenda
abriu
o corte cru
o estancou
me lavrou
me sujou
a brandura
morreu cheia
moveu-se oca
extra-vagante
atraves(sou)


Narjara Olivié

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

vermelho verme





nas noites de nervos & troncos
o despertar é vermelho

num trago ultravioleta
me exilo
a calmaria é cantante
o hino das sereias embalam uma fuga

na métrica
:
medo & ânsia

desenho no dorso do corpo
na boca do cálice
uma praga
que se alastra

pandemia
que assola meu sono
água
enzimas
sais inorgânicos

ácido
:
clorídrico & láctico

no ventre do silêncio
“toda lua é atroz e todo sol, amargo”
o precipício é estreito
e fermenta madrugada

Narjara Olivié

cafeina imaginária ou po-é-ti-ca tem-po


Xilogravura - Francisco josé Maringelli


Para você leitora incalta



os plásticos
embaçam o chão
as cores
se perdem no blecaute
e um traço-carvão
desfigura
o rosto
- cafeína imaginária -
delírios cambiantes
no lombo da viela
a linha tomba
a marcha lúgubre
ela divaga nas horas
surda & indolente
perfumando as quadras...

Ó! tormento noturno
con(fundes)
inquietações com prazer.



Narjara oliveira

terça-feira, 8 de julho de 2008


Ilustração de Gustave Doré par a Divina Comédia de Dante Alighiéri

canção agonista


para Narjara Oliveira

hoje não há perdão

XXXXXXXXXXXXXXX – só perdas

& chagas mal lambidas

pela solidão que nos

XXXXX persegue quando

mais nos buscamos

ainda que eu engula

montanhas de pedras ou

corte os pulsos

XXXXX com os cacos

afiados da vida

não seria capaz

XXXXXXXXXXXXXXXX de te provar

o valor de revelar-se

XXXXX desnuda aos 4

ventos da tortuosa

XXXXX estrada da existência

XXXXX sei que taparias

os olhos & ouvidos

XXXXX com chumaços

de paixão desenfreada

e me mandarias correr

XXXXXXXXXXXXXXX os 7 círculos

do inferno de Dante

a mim

XXXXXXXXXXX pouco importa

que fujas numa procissão

XXXXXXXXXXX ou cuspas fogo

sobre meus poemas

– velarei por teu nome

XXXXX como quem guarda

um segredo homicida –

levarei na carne

a lembrança tatuada

dos dias em que ardias

XXXXX como um sol

sobre minha pele

:

& esta solida impressão

te reinscreverá

em minha memória

XXXXX como um punhal

a persistir num corpo

XXXXXXXXXXXXXXX que agoniza

Pedro Vianna




terça-feira, 1 de julho de 2008



Curtas metragens alemães e poesia contemporânea paraense

Nesta quarta-feira, dia 2 de julho, quem curte cinema e literatura em Belém vai contar uma programação especial para o final de tarde. A partir das cinco horas, no espaço de ensaios da loja Ná Figueredo, vai acontecer o coquetel de pré-lançamento do Circuito Cultural Semeadura. O evento será uma prévia da programação que começará oficialmente em agosto e pretende movimentar eventos, idéias e discussões sobre literatura, cinema e arte contemporânea em geral na cidade.

A programação começará com a projeção de 5 curtas-metragens alemães cedidos pelo Instituto Cultural Amazônia. São curtas independentes de uma academia de cinema alemã chamada Baden Wutenberg Academy, todos produzidos por estudantes de cinema com apoio de cineastas famosos, como Wim Wenders. A Exibição desses curtas no Brasil foi a contrapartida do ICAB para a Mostra de cinema da Amazônia na Alemanha, realizando assim o intercambio cultural entre os dois países. Alguns desses curtas foram selecionados para o Student Academy Awards europeu.

Em seguida o poeta paraense Pedro Vianna fará a leitura de alguns poemas de seu novo livro, Sementes da Revolta. O livro, vencedor do I Prêmio Ipiranga de Literatura, foi bem recebido crítica, tendo sido prefaciado pelos renomados poetas João de Jesus Paes Loureiro e Antonio Moura. Sementes da Revolta é o segundo livro da carreira de Pedro Vianna e foi lançado no último dia 21 de junho. Esta será a primeira oportunidade do poeta de ler e trocar impressões sobre o texto recém saído da gráfica com o público.

A programação terminará com uma mesa redonda com time de peso discutindo poesia contemporânea. Os convidados são: Antonio Moura, autor de Dez (Gráfica & Editora Supercores, 1996); Hong Kong & outros poemas (Ateliê Editorial, 1999); e Rio Silêncio (Lumme Editor, 2003). Nilson Oliveira, autor de A Outra Morte de Haroldo Maranhão (Edições IAP, 2006), Benoni Araújo autor de Não por acaso dispersos (Inédito) e Pedro Vianna, autor de Itinerário Interno (Edição do Autor, 2007); e Sementes da Revolta (Fundação Ipiranga, 2008) que pretendem abordar a temática: Poéticas da Transgressão.

domingo, 8 de junho de 2008




Quando eu não te tinha, amava a natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza como um monge calmo à Virgem Maria, religiosamente, a meu modo, como dantes, mas de outra maneira mais comovida e próxima…Vejo melhor os rios quando vou contigo pelos campos até à beira dos rios; sentado a teu lado reparando nas nuvens reparo nelas melhor —Tu não me tiraste a Natureza…Tu mudaste a Natureza…Trouxeste-me a natureza para o pé de mim, por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma, por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais, por tu me escolheres para te ter e te amar, os meus olhos fitaram-na mais demoradamente sobre todas as coisas(...)

(...) Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo, e eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores. Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos, pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores, isso será uma alegria e uma verdade para mim.

O amor é uma companhia. Já não sei andar só pelos caminhos, porque já não posso andar só.
Um pensamento visivel faz-me andar mais depressa e ve menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. Mesmo a ausência dele é uma coisa que está comigo. E eu gosto tanto dele que não sei como o desejar.

Se nao vejo, imagino-o e sou forte como as árvores altas, mas se o vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dele. Todo eu sou qualquer força que me abandona. Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dele no meio.

( transformei "ela" em "ele" com a licença amorosa de F.P.)

F.P.


“Nós as abraçávamos e dançávamos. Não havia música, apenas dança. O lugar lotou inteiramente. As pessoas começaram a trazer garrafas. Caíamos fora para curtir os bares e voltávamos voando. A noite estava se tornando mais e mais desvairada. Desejava que Dean e Carlo estivessem ali – aí percebi que estariam deslocados e infelizes. Eles eram exatamente como o homem melancólico da pedra que geme na masmorra, erguendo-se dos subterrâneos, os sórdidos hipsters da América, uma inovadora geração beat, com a qual eu estava me ligando lentamente.”

On the road (Pé na estrada)Jack Kerouac
Trad. Eduardo Bueno

terça-feira, 29 de abril de 2008

Poesia vertical I




Uma rede de olhar
mantém unido o mundo,
não o deixa cair.
E mesmo que eu não saiba que passa com os cegos,
meus olhos apóiam-se em uma costa
que pode ser a de deus.
no entanto, eles buscam outra rede, outro fio,
que anda fechando os olhos com um traje emprestado
e desprende uma chuva já sem solo nem céu.
Meus olhos buscam isso
que nos faz arrancar os sapatos
para ver se há algo mais nos sustentando debaixo
ou inventar um pássaro
para apurar se existe o ar
ou criar um mundo
para saber se há deus
ou colocar-nos o chapéu
para comprovar que existimos.



Roberto Juarroz >>>>>>>>>>>>> tradução narjara oliveira

outro lado




um dia seremos anistiados